Fashion Film: O imaginário do desfile através da tela do cinema
Por: Victor Tiete Bonfim
Você observa exatamente o que as marcas de luxo querem expressar com as suas coleções durante os desfiles? Como as peças, medidas, ambientes, iluminação e trilha sonora podem transmitir em poucos detalhes conceitos, histórias e emoções? Muitos diretores criativos criam uma identidade para as coleções buscando algo significativo e que possa ser expressado nas peças de roupa e em outros elementos que, muitas vezes, não percebemos. Mas, existe uma ferramenta que é capaz de traduzir a essência que a coleção quer transmitir: o Fashion Film.

O Fashion Film é uma espécie de curta-metragem que possui uma produção maior e um enorme foco na moda, tornando-se uma transmissão de visão artística e conceitual sobre o estilo de uma marca ou de uma coleção específica. Ele se tornou um apelo de diversas marcas de luxo, em vez de depender apenas do tempo de um desfile ou da demonstração de um lookbook, as marcas passaram a operar como produtoras: contratam diretores, escalam elencos, constroem trilhas sonoras e entregam narrativas em que a roupa não é uma simples explicação, é um personagem. Essa criação produz resultados diferentes e significativos, como uma propaganda reconhecível e a criação de um mundo fictício, no qual a marca convida o público a entrar, observar e absorver o clima pelo ritmo das cenas.
Os Fashion Films têm raízes antigas, iniciadas no começo do século XX, mas não eram produzidos e vistos como conhecemos atualmente. Eles tinham maior foco na propaganda e em exibir uma série de quadros vivos que demonstravam os trajes da alta-costura daquela época, o que se tornou um marco revolucionário na publicidade e permitiu que as pessoas observassem as últimas tendências como se estivessem em um verdadeiro ateliê. Foi na década de 1970 que se teve, vindo da Fendi, um novo impulso com o formato que conhecemos. Esse marco testou o cinema como meio de apresentação de linguagem, com Jacques de Bascher assinando o curta “HISTORIE D’EAU”, o qual colocava a moda em movimentação nos ambientes e situações, algo que alguns dos instrumentos óptico (câmeras fotográfica) não poderiam alcançar.

Atualmente, as marcas de luxo utilizam os Fashion Films para apresentar coleções, perfumes e cosméticos com uma linguagem única e atrativa para o público. A Chanel apresentou a sua coleção Métiers D’Art 2026 por meio de um prólogo filmado, dirigido por Michel Gondry e estreado por Margaret Qualley e A$AP Rocky. A coleção chega primeiro como atmosfera, não apenas como vitrine, causando desejo puro para o público.

Com “The Tiger”, a Gucci transformou a estreia de “Demna” em um evento cinematográfico: um filme com première, estrutura de curta-metragem e elenco com peso de nome, como se a coleção precisasse ser lida como um enredo.

“The Hunt”, da Gentle Monster, dirigido por Nadia Lee Cohen e atuado por Hunter Schafer, aposta entre suspense e moda como o elemento principal, em um formato rápido e tenso, pensado para circular como cenário isolado.

Apresentado por Maison Margiela, “A Tabi Film” transforma o calçado em algo místico, retomando o fetiche em torno do objeto e tratando esse ícone como uma peça mitológica que pode ser filmada.

Em “What are dreams”, a Bottega Veneta aposta no silêncio e no estranhamento para o styling ganhar ritmo de sonho e o look virar narrativa.

E, recentemente, a Gucci apresentou sua campanha de primavera, intitulada “And We Shall Dance Again”, cujo fashion film explora a suavidade e a sedução. Dirigido por John Renck, o filme mostra a modelo Kate Moss no centro da produção, dublando a música “Wicked Game”, do cantor Chris Isaak, lançada em 1989. Enquanto a música toca em uma sala de espera, onde há pessoas desconhecidas vestidas com peças da coleção, com o passar do tempo, elas se aproximam, trocam olhares e protagonizam momentos de pura intimidade. No fim, todos começam a dançar, e o ambiente ganha um clima de romance.

Dessa forma, demonstra-se que o fashion film ultrapassa a função de simples divulgação e se torna uma extensão da identidade e da criatividade das marcas. A união entre moda e cinema permite transformar roupas em personagens e coleções em narrativas, utilizando elementos como música, iluminação, cenografia, movimento e atuação para transmitir conceitos e emoções. O fashion film cria uma experiência e convida o público a entrar no universo da marca. Assim, moda e cinema se complementam para transformar produtos em histórias, desejos e significados, tornando essa linguagem cada vez mais relevante na comunicação da moda contemporânea.
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