A origem punk das calças jeans rasgadas
Por: Sacha Oliveira da Silva
O que hoje é considerada uma peça de roupa quase unânime no guarda-roupa de muitas pessoas já foi sinônimo de pobreza e trabalho árduo. O tecido denim existe desde o século XVIII, porém as calças jeans comumente reconhecidas surgiram aproximadamente no início do século XX, sendo usadas principalmente como uniforme para trabalhadores fabris e mineradores.

A peça era usada por trabalhadores braçais devido à sua durabilidade, já que o tecido de algodão denim fornecia uma camada protetora considerada mais elevada quando comparada a outros tipos de algodão e linho utilizados. Outra característica marcante que foi estabelecida para as calças jeans foram os reforços metálicos nos bolsos e nas laterais. Oficialmente, a patente para esse tipo de fechamento originou a empresa Levi’s, antes nomeada David & Levi Strauss Company. O pensamento por trás disso contribui para a noção de que as calças eram designadas ao trabalhador braçal: seu papel era evitar que os bolsos rasgassem com facilidade, consequentemente mantendo o trabalhador limpo e seguro.

Durante grande parte da história da moda eurocêntrica, roupas rasgadas ou gastas eram sinais de pobreza, trabalho árduo e desgaste. Com isso, era considerado parte do senso comum que os indivíduos (geralmente as mulheres e meninas da casa) soubessem realizar pequenos remendos e consertos, para manter suas roupas e as de sua família bem ajustadas. No entanto, com o uso contínuo de uniformes e roupas destinadas a trabalhos mais exigentes, o constante reparo se tornava uma tarefa sem fim, e, considerando questões como a distância de um indivíduo da sua casa ou de um local que possibilitasse a realização de reparos, as roupas permaneceriam rasgadas. Um exemplo disso são os caubóis norte-americanos, que muitas vezes precisavam viajar por longas distâncias e permanecer em locais desertos.
Foi apenas durante os anos 60 que roupas remendadas sem acabamento ou propositalmente rasgadas e sujas começaram a ser usadas como parte de um movimento social-ideológico. As contraculturas dos anos 60 e 70 efetivamente moldaram muitos itens de roupa ainda muito utilizados ao redor do mundo, sendo um deles a calça jeans rasgada!

Assim como no passado, parte dos jovens que faziam parte dos movimentos de contracultura, em especial do movimento punk, também vinha de origens de classe trabalhadora. Assim, a ideia de roupas rasgadas e/ou sujas, que continuava sendo um tabu, passou a ser apropriada por essas comunidades para representar o sentimento anti-estabelecimento rebelde. Dessa forma, o uso de alfinetes de segurança, calças rasgadas ou pintadas e patches virou algo mais simbólico, indo além de uma forma de conserto. As contraculturas continuam a impactar a moda contemporânea não somente por representarem uma externação de valores e ideologias, mas por terem sido selecionadas por designers e estilistas reconhecidos, como Vivienne Westwood, inevitavelmente se tornando mainstream.
A fabricação de calças jeans propositalmente rasgadas surgiu aproximadamente nos anos 1980, com a ascensão de celebridades e cantores como Madonna e Iggy Pop, que faziam uso da peça. Com essa comercialização, o sentido punk original de “faça você mesmo” e anti-moda se perdeu, dando lugar ao mercado em massa que se concretizou nos anos 80 e 90.

A moda de contracultura ou anti-mainstream ainda persiste no contemporâneo, seja de uma forma completamente diferente ou emulando o sentimento dos anos 60 e 70, pois, afinal, o desejo de se diferenciar e de se expressar ainda permanece inato aos seres humanos.
Gostou? Siga a Trama Jr em todas as redes sociais para mais conteúdos como esse!




Comentários