Além das tendências: O esoterismo na moda
Por: Victor Tiete Bonfim
Dentre as diversas funções que a moda exerce, o desenvolvimento da identidade, bem como da autenticidade, constitui um dos processos mais relevantes. O que uma pessoa veste pode traduzir muitas mensagens: de símbolos astrológicos a referências à bruxaria, ao tarot e à espiritualidade, o esoterismo vem ocupando espaço como forma de expressão dos mundos internos individuais, por meio das roupas, acessórios e tatuagens. O que antes poderia aparecer de forma mais discreta em pequenos espaços, acabou se expandindo em grandes passarelas, shows e em produções artísticas.
Mas como essa relação entre o misticismo e a moda começou a aparecer e a ganhar espaço ao longo dos anos?

Um dos exemplos que demonstram o início dessa relação no meio da alta costura aparece em 1938, quando Elsa Schiaparelli apresentou a “Zodiac Collection”, uma coleção de outono/inverno que explora inspirações nos signos do zodíaco, no palácio de Versalhes durante o reinado de Luís XV e em elementos ligados ao universo. As peças traziam símbolos como estrelas, planetas, a Ursa Maior e o Sol em bordados e aplicações, transformando referências astrológicas em elementos decorativos.

Em seguida, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, o movimento hippie teve sua ascensão e trouxe ao público uma nova percepção do mundo exterior e interior. Em meio à contracultura e à busca por novas formas de liberdade, muitas pessoas passaram a se interessar por astrologia, tarot, religiões orientais, espiritualidade e rituais pagãos, levando essas referências também para a maneira de se vestir. Estampas cósmicas, símbolos de estrelas, luas e flores, peças artesanais, túnicas, franjas, tecidos fluidos e o estilo boho começaram a fazer parte do vestuário, criando uma estética com um significado específico: em busca pela liberdade da alma, expansão do conhecimento e reconexão com a terra. Além disso, a música e os festivais também ajudaram a espalhar essas referências, fazendo com que o esoterismo ultrapassasse o espaço das crenças e passasse a ocupar o cotidiano, tornando-se uma forma de expressão e identidade através da moda.

Falando dos anos 70 e do movimento espiritual e filosófico que surgiu, não podemos esquecer de comentar sobre a cantora e compositora Stevie Nicks, reconhecida, sobretudo, por ser vocalista da banda de rock “Fleetwood Mac”, e que se destaca pela sua voz etérea, por suas composições emblemáticas e pelo seu visual místico. Sendo nomeada como a “Bruxa branca do rock n´roll” por suas performances intensas e magnéticas, Stevie traz ao seu visual diversos elementos do estilo boho, utilizando vestidos esvoaçantes com rendas e transparências, lenços e xales, mangas e saias longas totalmente dramáticas, botas e sua cartola icônica, sempre presente nas apresentações. Um dos exemplos da utilização dessas peças, é na capa de “Bella Donna (1981), primeiro álbum de estúdio da carreira solo da Stevie Nicks, em que ela está com um vestido branco fluido, uma bota de plataforma e uma cacatua na mão, que simboliza o seu nascimento artístico e a transição para a sua jornada solo.

Atualmente, no Brasil, o interesse pelo esoterismo e pelo místico vem aumentando expressivamente no mainstream graças a artistas que demonstram as suas crenças por meio de músicas e videoclipes. Um grande exemplo é a artista mineira Marina Sena, que, com o álbum “Coisas Naturais”, lançado em 2025, explorou diversas nuances do esoterismo. O seu primeiro figurino apresenta uma estética mística e visceral, com elementos como crochê, miçangas, metais, correntes, pedrarias, franjas e diferentes texturas, que criam uma imagem mais natural, orgânica e, ao mesmo tempo, extravagante. Ela, ainda, utiliza o pedestal do microfone como incorporação de seu figurino, como se os dois refletissem o estado em que ela está.

No lançamento do seu EP “Marinada Vol.01” (2025), especial de verão e carnaval, tanto o figurino quanto o pedestal mudam completamente e apostam em cores de uma estética solar.

E no seu último figurino recente, Marina apresenta figurino e maquiagem totalmente maximalistas, cheia de jóias e de peças que parecem aproximá-la de um ser místico. Em sua performance, a cantora hipnotiza todos com a sua dança.

Através desses exemplos, podemos perceber como o misticismo e o esoterismo foram encontrando diferentes formas de serem expressados através da moda. Desde os símbolos astrológicos presentes na alta-costura de Schiaparelli, passando pela liberdade e espiritualidade do movimento hippie e chegando aos figurinos de artistas como Stevie Nicks e Marina Sena, essas referências foram se transformando de acordo com cada época e com a maneira que cada artista enxerga o mundo.
Hoje, o esoterismo não precisa aparecer somente através de símbolos ou de uma estética específica. Ele pode estar presente nas cores, nos materiais, nos acessórios, nos figurinos e nas performances, tornando a moda uma forma de transformar aquilo que existe no nosso mundo interior em algo que pode ser visto pelo mundo exterior. É dessa maneira que o místico continua encontrando espaço na moda, se reinventando a cada geração e mostrando que nem tudo precisa ser explicado para poder ser representado.
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