top of page

Bad Bunny e a construção da moda como cultura

  • Comunicação e Marketing
  • 5 de fev.
  • 3 min de leitura

Por: Melissa Mangueira


Há imagens que parecem simples demais para carregar tanto significado. Um homem de chapéu de palha, por exemplo, poderia facilmente passar despercebido em qualquer outro contexto. Mas quando esse homem é Bad Bunny, o acessório deixa de ser detalhe e passa a ser mensagem. O artista resiste e insiste em validar suas origens, carregando entre suas canções a importância da memória, do afeto e da construção de vínculo que apenas um lar pode trazer. O chapéu de palha que ele escolhe repetir em editoriais, capas e aparições públicas não é apenas uma decisão estética. Ele carrega a memória do campo porto-riquenho, da figura do jíbaro, do trabalhador rural historicamente associado à resistência cultural da ilha. Em um mercado global que exige constante reinvenção visual, Bad Bunny escolhe olhar para trás, para a própria origem, e transformar isso em imagem de moda. Estamos novamente vendo a moda se tornar resistência!


Bad Bunny no Met Gala 2025
Bad Bunny no Met Gala 2025

Desde o início da carreira, Benito Antonio Martínez Ocasio entendeu que vestir-se também é um gesto político. Enquanto sua música já tensionava fronteiras linguísticas e sonoras, sua imagem pública fazia o mesmo com os códigos tradicionais da masculinidade, do luxo e do pop latino. Unhas pintadas, saias, tecidos fluidos, alfaiatarias pouco convencionais e símbolos culturais explícitos passaram a coexistir no mesmo corpo. A moda, para ele, nunca funcionou como ornamento, mas como extensão direta de discurso. Cada look comunica pertencimento e, ao mesmo tempo, confronto. É sobre ocupar espaços que historicamente não foram pensados para corpos e narrativas como a sua.


Ensaio de Bad Bunny utilizando um chapéu de palha como marca de resistência
Ensaio de Bad Bunny utilizando um chapéu de palha como marca de resistência

Essa postura se consolidou de forma definitiva quando Bad Bunny passou a circular com naturalidade entre os palcos e as maiores instituições da indústria cultural. Sua presença recorrente no Grammy Awards não se resume às vitórias, embora elas sejam históricas. Ao se tornar o primeiro artista a vencer categorias centrais com álbuns integralmente em espanhol, ele reposiciona o eixo do que é considerado universal na música pop. Nos tapetes vermelhos, suas escolhas visuais reforçam essa mensagem. A moda aparece como ferramenta de afirmação cultural e não como adaptação a um padrão dominante. Mesmo em contextos formais, ele recusa a neutralidade estética, transformando o traje em linguagem.


Bad Bunny no Met Gala 2024
Bad Bunny no Met Gala 2024

É nesse ponto que a recente conexão com o Brasil ganha contornos especialmente simbólicos. Parece pouco provável, mas ao participar de um editorial de moda vestindo peças assinadas por Sasha Meneghel, Bad Bunny ativa uma camada afetiva que vai além da roupa. Ao descobrir que a criadora da marca é filha de Xuxa, o artista compartilhou publicamente sua surpresa e emoção ao reconhecer nela uma figura central de sua infância. Xuxa, que atravessou fronteiras nos anos 1990 com seus programas exibidos em diversos países da América Latina, foi parte da formação cultural de uma geração inteira, inclusive fora do Brasil. Essa memória, quando reaparece mediada pela moda, ganha nova vida e novo significado.


Bad Bunny vestindo roupas assinadas por Sasha Meneghel
Bad Bunny vestindo roupas assinadas por Sasha Meneghel

O gesto é poderoso justamente por sua sutileza. Não há nostalgia óbvia nem exploração caricata do passado. Há, sim, um encontro entre trajetórias que se cruzam pela via da cultura popular. Um artista porto-riquenho global veste uma marca brasileira criada por alguém que carrega um dos sobrenomes mais emblemáticos da televisão latino-americana. A moda se torna, assim, um ponto de contato entre histórias, geografias e afetos. Ela não apenas veste o corpo, mas costura narrativas.


Bad Bunny entende que imagens constroem legado e o  chapéu de palha volta aqui como símbolo central dessa lógica. Ele aparece como lembrança de origem, como resistência estética e como recusa ao apagamento cultural que muitas vezes acompanha o sucesso global. Ao levá-lo para editoriais de alto padrão, capas de revista e premiações internacionais, o artista reposiciona o que pode ser considerado sofisticado. O luxo não passa a ser sinônimo de distanciamento, mas sim um meio de dialogar com identidade, memória e território.


No fim, a força de Bad Bunny no mundo da moda não está apenas em sua capacidade de antecipar tendências, mas em sua habilidade de transformar roupas em narrativa cultural. Entre o chapéu de palha, o Grammy, a lembrança de Xuxa e a escolha consciente de marcas e símbolos, ele constrói uma imagem que resiste à superficialidade. Uma imagem que não pede permissão para existir e que prova, mais uma vez, que a moda continua sendo uma das formas mais eficazes de contar histórias sobre quem somos e de onde viemos!


Gostou da leitura? Então siga a Trama Jr. em todas as redes sociais para ficar por dentro de tudo sobre o universo da moda!

 
 
 

Comentários


Fique por dentro de tudo que acontece na TRAMA Júnior:

bottom of page