Como a moda esportiva saiu dos estádios e dominou as ruas e as passarelas
- Comunicação e Marketing
- 23 de jun.
- 4 min de leitura
Post por: Gabriela Souza Correia.
Durante décadas, moda e esporte ocuparam mundos distintos. O esporte tinha seus uniformes e a moda tinha seus códigos. O salto alto era associado à sofisticação e o tênis era visto apenas como item esportivo.
Quando o visual esportivo saiu dos estádios
Essa divisão começou a se desfazer quando peças esportivas passaram a circular fora dos campos e quadras. As camisas de times passaram a ser usadas por torcedores no dia a dia, os atletas se tornaram ícones de estilo, o streetwear incorporou elementos esportivos e a cultura jovem transformou o uniforme esportivo em tendência.
Essa transição ocorreu de forma gradual, entre os anos 70 a 90, impulsionada por diferentes movimentos culturais. A partir desse momento, as ruas começaram a observar os estádios como fontes de inspiração estética.
O Football Casual, surgiu na Europa entre torcedores britânicos, que começaram a misturar camisas de clubes e agasalhos esportivos com peças de grifes de luxo para driblar a vigilância policial e entrar nos estádios com estilo.

Imagem 90s football casuals - Fonte: Pinterest | Reprodução.
Nos Estados Unidos, o Skate e o Hip-Hop adotaram jaquetas corta-vento, camisetas jersey e calças de moletom largas que surgiram da necessidade de conforto e resistência. Mais tarde, marcas como a Supreme transformaram esse estilo em símbolo de atitude cultural.

Imagem Supreme crew, Lafayette Street, New York City 2001 -
Fonte: Instagram | Reprodução.
Já o athleisure, que nasceu nos anos 2000 e explodiu na década de 2010, consolidou a fusão entre funcionalidade atlética e o cotidiano. Além disso, o movimento contou com o avanço da tecnologia têxtil que permitiu a criação de malhas leves, práticas e versáteis, favorecendo o uso de roupas esportivas combinadas com blazer e peças estruturadas.
O tênis como líder da revolução
Entre todas as peças, o tênis foi o maior protagonista dessa revolução. Enquanto outras roupas esportivas ganhavam espaço, ele saiu das quadras, entrou nas universidades, invadiu escritórios e alcançou as passarelas. O que antes era um calçado de performance tornou-se um símbolo de estilo, conforto e identidade.
A ascensão do hip-hop e do basquete teve papel central nesse processo. Um dos marcos mais simbólicos foi o contrato de patrocínio entre o grupo de rap Run D.M.C. e a Adidas, que transformou o modelo Superstar em ícone a partir da música “My Adidas”.

Imagem Adidas Superstar e rap Run D.M.C - Fonte: Estadão | Reprodução.
Anos depois, o lançamento do Nike Air Jordan 1 em 1985 consolidou a tendência do sneaker, como objeto de desejo, inaugurando uma era em que calçados esportivos ultrapassavam o universo atlético.

Imagem Air Jordan 1 Retro High ’85 Black White and Natural Gray -
Fonte: WWD | Reprodução.
Nas décadas seguintes, houve colaborações entre marcas esportivas e artistas do hip-hop, como Kanye West, usando o Nike Air Yeezy e as criações autorais de marcas de luxo como Dior e Louis Vuitton, que reforçaram o status do tênis como peça central da moda contemporânea.

Imagem Kanye West se apresenta na cerimônia do Grammy de 2008 usando
o protótipo do Nike Air Yeezy 1 - Fonte: Us Magazine | Reprodução.

Imagem Chanel A/W14 - Fonte: AnOther | Reprodução.
A troca simbólica do salto ao tênis
O salto não desapareceu, mas sua posição como símbolo quase exclusivo de elegância mudou. A moda passou a valorizar cada vez mais o conforto e o bem-estar. Nesse contexto, o tênis deixou de ser apenas uma alternativa casual para se tornar uma opção legítima em ocasiões que antes exigiam o salto alto.
O calçado esportivo também transformou a definição de elegância e alcançou as passarelas, principalmente devido à busca por praticidade nas rotinas das grandes cidades e ao novo cenário do mercado de moda, que aponta o tênis como uma das principais apostas de consumo e comodidade na atualidade.
Quando as passarelas aderiram ao movimento
A consolidação dessa transformação ficou evidente de fato quando grandes marcas de luxo passaram a incorporar referências esportivas em suas coleções. Tênis foram combinados com vestidos sofisticados, moletons dividiram espaço com peças de alta-costura e elementos dos uniformes esportivos passaram a inspirar coleções inteiras. Tudo isso provou que conforto e estilo não precisam ser opostos.
O esporte se estabeleceu nas passarelas por volta dos anos 2010, com a febre dos sneakers e quando atletas da NBA e da F1 se tornaram ícones globais de estilo.

Imagem 2000s nba style - Fonte: Pinterest | Reprodução.
Entretanto, já no século XIX e início do século XX, com o retorno dos Jogos Olímpicos
modernos, estilistas como Jean Patou e Coco Chanel começaram a desenhar roupas mais confortáveis e funcionais para mulheres, incorporando o golfe, o tênis e a camisa polo ao vestuário.

Imagem A tenista Suzanne Lenglen com look da Maison Jean Patou -
Fonte: Elle | Reprodução.
Outros fatores também favoreceram esse processo, como o pós-Segunda Guerra Mundial, que impulsionou marcas especializadas em performance esportiva a produzirem vestuário para o cotidiano, além da influência urbana e do cinema.
A ascensão do sportswear mostra que a moda nem sempre nasce nas passarelas. Muitas vezes, ela surge nas arquibancadas, nas quadras e nas ruas, onde as pessoas transformam peças funcionais em símbolos de identidade. O que começou como roupa para competir tornou-se uma forma de expressão cultural usada por milhões de pessoas ao redor do mundo.
A vitória do sportswear não foi conquistada em uma única partida. Ela foi construída por atletas, artistas, estilistas e consumidores que passaram a valorizar o conforto sem abrir mão do estilo, entre arquibancadas, quadras, ruas e passarelas. Hoje, o placar mostra que conforto e estilo podem jogar no mesmo time.
Se a moda fosse um campeonato, qual seria a sua camisa titular: salto ou tênis?
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